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domingo, 24 de janeiro de 2016

Brasil: uma civilização em atraso.

Campo de Concentração de Dachau, ALE
Todas as vezes que viajo ao exterior, deparo-me com uma diferença enorme entre o povo civilizado do primeiro mundo e o do terceiro mundo.

No primeiro mundo, o respeito ao outro e ao que fizeram os antepassados, são a tônica da sociedade. Aprende-se com os erros. Não se vê a preocupação do imediatismo, do "eu só planto o que eu vou colher". Não existe a ideia de que se eu tou tirando vantagem do outro é porque sou esperto e o outro, idiota. Não!!!

Lá, planta-se para que eu ou outros, ou ainda, a próxima geração, colham os frutos e se deliciem-se com seu sabor, agradecendo a quem um dia plantou aquela árvore, mesmo sem conhecê-lo.

Lembro que quando houve o tsunami no Japão, um repórter brasileiro vendo um senhor colocando as coisas numa parte alta da sua rua, perguntou como ele iria fazer para proteger tudo aquilo, já que só teria uma nova casa após a reconstrução da que a água levou. Ele disse que ficaria tudo lá. Mais uma vez, o repórter tupiniquim perguntou "mas, o senhor vai deixar tudo aqui, sem proteção alguma?", obtendo como resposta  que iria deixar tudo coberto com plástico ou tecido (não lembro direito). Mais uma vez, o repórter insiste: "O senhor não tem medo que roubem tudo?". O senhor japonês, no alto dos seus setenta e poucos anos, olhou sem entender a pergunta: "Como assim? todos aqui sabem que esses móveis são meus. Por que alguém roubaria?". Sim, ele sabia que os cidadãos daquela cidade não teriam porque roubar algo que lhe pertencia. E é assim na grande maioria dos países verdadeiramente civilizados.

Nos metrôs ou bondes em muitas cidades desses países, não há sequer catracas ou algo similar, onde se deva apresentar o ticket antes de entrar. Em outros, apresenta-se para passar na catraca apenas para validá-la. Um professor brasileiro que foi fazer um curso em Estocolmo-SUE, percebeu logo nos primeiros dias que haviam catracas no metrô de lá, mas também um acesso livre. Vendo que ninguém passava por esse caminho, foi perguntar na cabine de venda de tickets o motivo de estar ali, sem ninguém para fazer a segurança daquela entrada aberta. A resposta do atendente: "Essa é a passagem para quem, por algum motivo, não pode pagar pelo ticket por não ter dinheiro". O professor, com mestrado e toda a educação necessária para se fazer um cidadão, indagou: "E se a pessoa tiver dinheiro e simplesmente quiser burlar a lei?". O cidadão sueco, empregado para a venda de tais tickets, com um sorriso inocente no rosto, respondeu: "mas, se ela tem condição, por que ela faria isso?".

Em tais sociedades, qualquer ato de se levar vantagem em relação a sociedade é tida como uma prova de mau-caratismo, de ser uma pessoa egoísta e ambiciosa, de alguém que não pensa sequer no que a sociedade vai proporcionar aos seus filhos, netos e demais descendentes.

No Brasil, a civilidade está em ser educado. Mas educado no sentido de polidez e não em seus atos em prol da sociedade. Idolatramos o esperto, o que sempre consegue fazer negócio tirando a maior vantagem possível do outro. Reverenciamos quem tem o carro mais caro, a roupa de marca, o "rasgar-dinheiro" sem motivo nobre. Criticamos quem pula a catraca, mas achamos correto ficar com o troco errado, quando for a favor de nós (e sem imaginar que aquele erro a pessoa no caixa vai pagar do bolso dela).

Aí, pergunto-me: somos realmente civilizados?

Em países da América Latina, a realidade é similar à Brasileira. Então, questiono-me; como chegamos aqui? Porquê não conseguimos evoluir como cidadãos?

É, chegamos aqui porque o exemplo vem de cima. Os políticos, que são quem a grande maioria da população acredita ser um "grande pai", responsável por sua melhoria de vida, demonstram que o importante é assegurar o seu e, depois, se sobrar algo, o dos outros. Pais oferecem propina para policiais se fazerem de cegos na frente dos seus filhos. Mães se vangloriam da inveja que causaram por ter um produto ou roupa cara ou de marca na frente das filhas. Sindicatos alardeiam que o FGTS (que não é incorporado ao salário líquido para compor um fundo de "proteção" administrado pelo governo, com rendimentos piores que a da poupança) e o INSS (que promete uma aposentadoria onde se vai ganhar menos que o último salário que se recebeu e terá reajustes menores que o salário mínimo, chegando a valer, em 10 anos, metade do primeiro que recebeu) são direitos maravilhosos e que não devem ser retirados dos trabalhadores , talvez por considerá-los incompetentes para administrar a própria vida.

Talvez seja isso! A vontade de se considerar mais inteligente que a média e o assistencialismo em todas as áreas faz com que as pessoas achem que o que elas fazem é o correto, pois não é sua culpa se a Justiça não é rígida, se a empresa aumenta o preço das coisas, se a vizinha prefere pagar um curso para a filha do que comprar uma bolsa de marca...

Lembro-me de um jornalista de Brasília que veio a Manaus nos anos 90, e da redação pegou carona com um auxiliar para o seu hotel. Percebeu que ele estava saindo da empresa com todos os vidros fechados, tendo apenas pequeno ventilador embaixo do painel na direção do motorista. Perguntou por que, naquele calor de quase 40 graus, ele mantinha tudo fechado. Resposta: "É para as pessoas acharem que eu tenho ar condicionado". E ainda pediu para o jornalista não abrir a janela!

Isso é um triste fato que prova que não nos incomodamos com os outros, mas sim, com o que os outros pensam de nós.

Espero que um dia o brasileiro entenda que plantar uma castanheira, que leva 40 anos para dar frutos, é tão vantajoso e importante quanto um pé de maracujá, que já tem frutos com 5 meses.

Eu tou fazendo a minha parte. E você?